"Meu pai é uma pessoa muito esquisita. Se eu te disser que eu não sei até hoje quem é meu pai, você vai dizer que é mentira minha. Meu pai tem bigode, cabelo preto, ele descende de índio, ele se chama Romeu de Oliveira Costa, o pai chamava Francisco, a mãe chamava Idalina e é o máximo que eu sei dele e eu sei que ele gosta muito de mim. Quer dizer, eu não tenho muitas referências a respeito do meu pai porque ele é uma pessoa que praticamente não fala. Ele entra assim em casa, ele lê o jornal, ele é uma pessoa que infelizmente não participou muito da vida da gente".
O trecho acima foi dito por Elis Regina em 1973 no programa Ensaio da TV Cultura. Elis tinha então 28 anos e dizia que não conhecia o seu pai. Fico pensando que esse sentimento de desconhecimento da figura paterna talvez seja mais comum do que parece. Em tese, o pai é a figura masculina do lar, aquela figura responsável por passar aos filhos noções de ética, de firmeza, um exemplo de dignidade incontestável a ser seguido e admirado. A impressão que eu tenho é que a presença paterna se estabelece para contrapor a figura materna. De um lado temos mães dóceis, afetivas, emocionais. Do outro pais durões, educadores rígidos, científicos. Juntando essas duas fórmulas teríamos um casal exemplar como genitores e cresceríamos felizes, crianças bem educadas que se tornariam adultos bem resolvidos.
Mas veja bem, em tese. Porque na prática não existe uma fórmula para educar filhos. Caso contrário, toda criança criada sem a presença – física ou emocional – de um pai estaria fadada a ser um adulto instável. E não é o que tenho visto.
Acredito na formação familiar tradicional, aquela que é constituída por pai e mãe casados com filhos amados e bem educados. Um homem e uma mulher que se amam e se respeitam e respeitam a liberdade e individualidade de seus filhos é um exemplo bacana a ser seguido. Filhos criados por pais assim tendem a se tornar adultos seguros e bem realizados.
Por outro lado, existe uma gama imensa de seres humanos e, hoje em dia, uma tendência cada vez maior de que os novos habitantes do planeta Terra nasçam no seio de uma família ‘disfuncional’ se vista pelos olhares conservadores. Cada vez mais mulheres decidem criar seus filhos sozinhas sem a presença de uma figura masculina como referencial. Existem crianças que são criadas pelos pais, sem a presença da figura materna. Ou porque essa mãe simplesmente não estava preparada para a maternidade (acontece, antes de ser mãe ela é mulher, e não julgo quem se arrepende de decisões tomadas na vida, mesmo uma decisão tão importante quanto pôr alguém no mundo), ou porque deixou de existir fisicamente. É cada vez mais crescente também o número de pais homossexuais. E de certo modo, o que todos esses exemplos não convencionais tem nos mostrado é que, independente da estrutura familiar, o que interessa na criação e formação do caráter de um ser humano é uma boa educação e a opção pela clareza, pela verdade da informação que deveria sempre ser isenta de rancores ou opiniões pessoais.
Existindo essas questões na criação de um filho, acho que as coisas ficam mais fáceis. A mãe não precisa espinafrar um pai ausente, dizer que ele é um vagabundo e que nunca se preocupou com o filho. Acho que isso só faria com que essa criança se sentisse rejeitada e enxergasse a mãe como uma mulher magoada. Mas a mãe também não vai adoçar uma realidade que, aos olhos dessa criança, é amarga. O que fazer então? Qual o caminho para preencher o vazio causado por essa lacuna? A verdade, sempre a verdade. Dizer que o pai é e foi uma figura ausente é uma alternativa, mas buscar adjetivos de baixo calão para qualificar essa sua ausência talvez não seja uma boa opção. Não acredito que a ausência de uma figura primordial seja uma ferida tão simples de se curar, mas chega um momento que a gente simplesmente não sente mais falta dessa figura. É o momento em que cai a ficha de que não sentimos falta daquilo que nunca tivemos. É a presença da ausência.
Mesmo para aqueles que sempre tiveram uma presença física constante da figura paterna, mas que tal qual Elis Regina, não conseguem dar forma ao estopo do pai, recomendo uma dose de aceitação. Aceitar que as coisas talvez não mudem nunca. Ou que talvez mudem, mas de uma maneira vagarosa, quase imperceptível. Falando sobre isso, me vem à mente, uma conversa com um amigo. Ele me disse que vê o pai pouquíssimas vezes, uma vez ao ano, quando viaja de férias e aproveita para rever a família. Esse amigo me contou que quando vê o seu pai, eles sequer trocam um abraço, seu pai lhe estende os dedos (veja bem, os dedos!) e ele os aperta de maneira bastante constrangida. Por isso, esse amigo que já tem lá seus trinta e poucos anos, disse que desistiu de tentar uma aproximação e que tentará numa próxima encarnação se aproximar do seu pai, quem sabe ele vindo como pai do pai que será seu filho. Não julgo esse meu amigo. Talvez seja uma atitude resignada e conformista. Talvez seja uma maneira de se poupar de futuros dissabores.
Acho que seria ideal que todos os seres humanos estivessem muito bem estruturados psicologicamente para serem pais e mães. Mas não é o que acontece. Somos passíveis de erros, cheios de defeitos. O despreparo na maternidade/paternidade é latente na maioria dos casos. Vivemos num mundo onde nos conectamos cada vez mais rápido com um número maior de pessoas, mas o verdadeiro contato íntimo e afetuoso está se perdendo. E talvez seja isso que falte na criação dos filhos. Uma re-conexão. Mães e pais talvez tenham mais a aprender do que ensinar. Educação, amor, respeito, liberdade, tudo isso é muito importante para fortalecer a auto-estima de um ser humano. E torço para que as próximas gerações de pais e mães despreparados que estão por vir, entendam isso. É preciso aumentar o Exército do Bem.
Esse texto foi escrito pelo meu melhor amigo, alguém que me conforta, anima e dá idéias incriveis e geniais em toda e qualuqre conversa, por mais despretenciosa que seja. Ele é Ricardo Silva, formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto e mantém o blog Música para decifrar. Não necessariamente eu e a Isabella concordamos com o conteúdo escrito, e ainda assim agradeço muito pelo texto!
Manhê...abaixa o som!
Mães que ficam com o suvaco incrivelmente fedido, mas mesmo assim ainda conseguem enfrentar sua rotina suada de cabeça erguida. Gente normal, que acorda com o som gutural da prole no berço ou a esticada de braço do homem ao lado. Impressionantemente imprecisas, surpreendentemente sérias e despretensiosamente intelectuais. Só falta abaixar mais o som, e mesmo assim você ainda vai dormir com um barulho desses.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Até tu, "sendo" brutas?
Sandy fez a devassa. Em entrevista à última edição da Playboy, ela teve muita falta de senso ao dizer que homem é tudo galinha, que é que nem macaco e que nunca serão monogâmicos, mas que a mulher nasceu prá ser mãe!
Tenso!
Que tipo de babosteira é essa?
Depois eu li vários sites tirando sarro da Sandy só porque a frase bombástica dela nessa entrevista era a de que "é possível ter prazer com sexo anal". E aí pegaram a mãe dela prá Cristo, mas aí é que tá: será que a mãe tem ou não sua parte de responsabilidae no que sua filha vomita prá mídia?
Vale pensar:
Será que podemos dar às nossas filhas, a mensagem de que elas não são obrigadas a ter filhos caso decidam não tê-los? Essa é, decidiamente, uma mensagem muito difícil para a maior parte das pessoas. Muitas encaram o ato de ter filhos - uma família - como a realização máxima, como uma vida repleta de surpremas alegrias e dores de parar o coração, que vale cada minuto vivido. Há tempos, esse é dado como o único caminho que cada mulher tem.
Nossas filhas não serão obrigadas a ir atrás de uma vida cheia de filhos se escolherem não fazê-lo. De serem fadadas à maternidade. Será que podemos permitir que nossas filhas façam sua escolha?
Acho importante que minha filha saiba que não temos que nos ajustar aos modelos existentes para sermos aceitas pelos outros.
Não vamos deixar que nossas filhas sejam esmaecidas pela vida. Temos que ajudá-las a lutar para elevar além do que é comum e tedioso. Incentivando-as sempre à expor o que tem em mente sendo claras à respeito de suas próprias opiniões e intenções, quando isso acontece elas aprendem a fazer escolhas boas, sólidas, e a dar força a outras mulheres tendo muito a oferecer: paixões, energia e inteligência.
Seria interessante ensinar que é ótimo ser fogosa, desafiadora face à injustiça, intensa, ambiciosa e não disposta a entrar em acordo com a mediocridade. A idéia não é educar filhas que intimidem outras pessoas, mas educar filhas que sejam cheias de vida, energia e vitalidade e "ruidosas" - características que elas não precisam ter medo de mostrar!
Por que será que eu gosto tanto desse trecho de um texto escrito por Bobbi Linkletter?
"Espero que você seja menos açucarada e mais temperada, e apenas um pouquinho gentil, assumam seus rangidos, moças, seu mau humor, suas paixões, seus eus. Conservem sua centelha, sua individualidade, suas excentricidades...Você não precisa ser refinada como uma dama para ser mulher, pois ser mulher é complexo. Uma essência contendo tudo que você é...gentil, séria e generosa de coração, mas honesta, arrebatada e resoluta"
Vamos caminhar para frente, junto com as meninas de hoje, para lhes dar um profundo sentimento de identidade e força interior. Se você tem uma filha, ame-a. E depois ame-a um pouco mais.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
fami-liar
O primeiro filho tive aos 20 e poucos anos e a segunda quando havia passado dos 30. A diferença é notável. Hoje em dia tenho mais paciência, dou mais atenção e tenho consciência da mãe que quero ser para meus filhos, independentemente do que as pessoas a minha volta me digam, tenho minhas opiniões seguras e estou convicta. O que faço e escolho não é só com o coração...uso também a cabeça, atenta até aos mínimos detalhes.
Ainda meus filhos são tão diferentes de mim! De quem eu fui, de quem eu sou agora e possivelmente de quem ainda serei.
Numa entrevista á Marilia Gabriela agora pouco escutei o Bernardo Paz dizendo "quando você tem personalidade muito forte a tendência é seus filhos desenvolverem uma personalidade própria bastante independente e diferente da sua". E ele tem uns 7 filhos...caramba!
Eu não tenho muito, e ao mesmo tempo tenho tudo, em comum com meus pais (em termos de personalidade mesmo). Passei o final de semana com eles - por motivos pessoais - e percebi o quanto nos complementamos.
A formação da personalidade passa por diversos traços da criação de uma pessoa, desde a cultura, local onde nasceu, valores da família, entorno social e tudo o mais. Acontece que estamos aquén dessas definições psico-sociais.
Viva o amor! Esse sim inter-relaciona filhos e pais. E que a gente viva em paz, ainda assim, se possível for.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Mãe + solteira = feminista
Uma coisa leva à outra? Causa/consequência. Ser mãe e mulher solteira faz de mim alguém necessariamente feminista?
Gente, é claro que não. Essa conta matemática que dá título ao post não é exata, nem precisa nem necessariamente necessária!
Pois é, querida leitora que gosta de jogar na minha cara seu patrulhamento ideológico sobre meu feminismo e misturar toda sua confusão com uma questão tão delicada e dolorosa da minha vida como o fato de ter me tornado uma mãe solteira!
Nem nos meus piores pesadelos eu imaginava que isso algum dia iria me acontecer. Nem para meus piores inimigos eu desejaria uma situação dessas. E digo assim, tragicamente, porque é muito difícil prá mim viver com isso, nada agradável engolir um sapo desses. Há um tempo atrás eu me apaixonei por um cara com quem eu tinha muita afinidade e afeto. Daí engravidamos! Enquanto via nossa relação amorosa ir prô saco tentava ainda que dolorosamente sozinha curtir tudo que eu sentia com a pequena crescendo dentro de mim,sendo gerada no meu corpo...
Depois de 9 meses você vê o resultado (isso me lembra uma música bizarra, mas eu tenho senso de humor, não consigo evitar!)e então o que restava de um namoro acabou acabando e o pai da minha filha voltou prô Sul (de onde...já era desde sempre)! E eu me vi ali, sentada sozinha com minha filha no colo e pensando triste e doidivanamente "Caramba, e agora? Como que vai ser?". Minha família me dá um apoio incrível e, se não fosse por eles eu não sei, teria sido bem mais treta passar por tudo isso psicológicamente e por que não dizer também: estruturalmente.
Não precisamos de homem prá sustentar nossos filhos! É fato! Nem prá ter nosso equilíbrio emocional garantido! Nem prá chamar de nosso! Nem prá nenhuma daquelas balelas que a sociedade tentou empurrar prô nosso incosciente e coletivo. Mas eu tinha um envolvimento emocional com o cara e não ia puxá-lo pela gola da blusa e dizer algo tipo "volta aqui e vem ficar com a gente direito, puxa vida!"
Os dias foram passando e colocar sozinha minha filha prá dormir era o habitual. Acordar sozinha durante a madrugada prá trocar as fraldas dela também. Ver sozinha o produto do meu amor com ele me chamando de mamãe e não tendo com quem dividir um sorriso naquele momento também acabou passando. E eu não chorei loucamente nem entrei em depressão porque não tinha um homem do meu lado! Nada disso!
Mas uma coisa não implica em outra. Sou mãe e não namoro mais com os diferentes pais dos meus filhos. Tenho um outro namorado que já tem outros dois filhos também. E NADA disso faz de mim uma feminista. Mas ficar p.da vida com o patriarcado, ter senso crítico sempre que vejo umas bobagens machistas sem noção, não achar graça de piadas que diminuem a mulher pela sua condição de gênero entre outras mil coisas que tem a ver com a luta pela igualdade de direitos para nós mulheres, isso tudo sim faz de mim uma feminista assumida!
Tem mulher que arruma um sêmem em banco de esperma e engravida "artificialmente" e que não quer e nem vai dar um pai para sua cria. E acho ótimo e corajoso. E quem disse que as crianças precisam dessa bobagem da referência de masculino e feminino? Eu discordo! Tenho minhas dúvidas, até porque ler esse tipo de coisa me deixa nervosa.
Cada um faz o que quiser da vida. Depois arca com suas consequências e karmas. E ninguém tem nada a ver com isso. O que você ganha julgando a vivência dos outros? Se eu sou mãe e sou solteira ninguém tem nada com isso. E acho o feminismo tão essencial quanto respirar! Só isso!
Gente, é claro que não. Essa conta matemática que dá título ao post não é exata, nem precisa nem necessariamente necessária!
Pois é, querida leitora que gosta de jogar na minha cara seu patrulhamento ideológico sobre meu feminismo e misturar toda sua confusão com uma questão tão delicada e dolorosa da minha vida como o fato de ter me tornado uma mãe solteira!
Nem nos meus piores pesadelos eu imaginava que isso algum dia iria me acontecer. Nem para meus piores inimigos eu desejaria uma situação dessas. E digo assim, tragicamente, porque é muito difícil prá mim viver com isso, nada agradável engolir um sapo desses. Há um tempo atrás eu me apaixonei por um cara com quem eu tinha muita afinidade e afeto. Daí engravidamos! Enquanto via nossa relação amorosa ir prô saco tentava ainda que dolorosamente sozinha curtir tudo que eu sentia com a pequena crescendo dentro de mim,sendo gerada no meu corpo...
Depois de 9 meses você vê o resultado (isso me lembra uma música bizarra, mas eu tenho senso de humor, não consigo evitar!)e então o que restava de um namoro acabou acabando e o pai da minha filha voltou prô Sul (de onde...já era desde sempre)! E eu me vi ali, sentada sozinha com minha filha no colo e pensando triste e doidivanamente "Caramba, e agora? Como que vai ser?". Minha família me dá um apoio incrível e, se não fosse por eles eu não sei, teria sido bem mais treta passar por tudo isso psicológicamente e por que não dizer também: estruturalmente.
Não precisamos de homem prá sustentar nossos filhos! É fato! Nem prá ter nosso equilíbrio emocional garantido! Nem prá chamar de nosso! Nem prá nenhuma daquelas balelas que a sociedade tentou empurrar prô nosso incosciente e coletivo. Mas eu tinha um envolvimento emocional com o cara e não ia puxá-lo pela gola da blusa e dizer algo tipo "volta aqui e vem ficar com a gente direito, puxa vida!"
Os dias foram passando e colocar sozinha minha filha prá dormir era o habitual. Acordar sozinha durante a madrugada prá trocar as fraldas dela também. Ver sozinha o produto do meu amor com ele me chamando de mamãe e não tendo com quem dividir um sorriso naquele momento também acabou passando. E eu não chorei loucamente nem entrei em depressão porque não tinha um homem do meu lado! Nada disso!
Mas uma coisa não implica em outra. Sou mãe e não namoro mais com os diferentes pais dos meus filhos. Tenho um outro namorado que já tem outros dois filhos também. E NADA disso faz de mim uma feminista. Mas ficar p.da vida com o patriarcado, ter senso crítico sempre que vejo umas bobagens machistas sem noção, não achar graça de piadas que diminuem a mulher pela sua condição de gênero entre outras mil coisas que tem a ver com a luta pela igualdade de direitos para nós mulheres, isso tudo sim faz de mim uma feminista assumida!
Tem mulher que arruma um sêmem em banco de esperma e engravida "artificialmente" e que não quer e nem vai dar um pai para sua cria. E acho ótimo e corajoso. E quem disse que as crianças precisam dessa bobagem da referência de masculino e feminino? Eu discordo! Tenho minhas dúvidas, até porque ler esse tipo de coisa me deixa nervosa.
Cada um faz o que quiser da vida. Depois arca com suas consequências e karmas. E ninguém tem nada a ver com isso. O que você ganha julgando a vivência dos outros? Se eu sou mãe e sou solteira ninguém tem nada com isso. E acho o feminismo tão essencial quanto respirar! Só isso!
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Maternidade = Dilemas Internos
O que você entende por "identidade"? Eu uso a definição de que identidade é uma teoria sobre nós mesmos que é formada e mantida através de um acordo interno e externo a respeito do que achamos que somos ou queremos ser. Tá, meio grande a teoria - coloquemos então assim: Identidade é aquilo que a gente entende como sendo nosso. É também como a gente interage com os outros e como essa interação afeta a nossa identidade.
Quando a gente tem filho, nossa identidade muda. Fica muito mais complexa, porque além de sermos tudo aquilo que éramos antes, agora somos também isso daqui: mães, pais. E esse novo "ítem" no cardápio afeta tudo aquilo que éramos antes; dá uma cara "nova" às coisas que a gente sentia por certas pessoas especiais, certos lugares, certos eventos nas nossas vidas; tudo agora opera "em relação à" nossa maternidade. Seria ridículo pensar que essa nova identidade tão mais complexa não produziria dilemas internos homéricos. Principalmente se você tem filhos ainda nos vinte e poucos anos, quando mal formou sua identidade como mulher, sua identidade sexual, sua identidade como trabalhadora, estudante universitária, o que for.
E eis que um confronto passivo-agressivo (é claro) fez-se num comentário anônimo (é claro) de que o Manhê "sofre de vários dilemas internos".
Santa redundância, Batman.
É CLARO QUE SOFRE. É claro que sofre. Ser mãe é sofrer de dilemas internos e ponto. Eu sofro de dilemas internos o tempo todo, a Anelise sofre de dilemas internos o tempo todo - que mãe não sofre? E o blog, como produto da nossa maternidade, sofre de dilemas internos sim. Muita coisa que a gente escreve sôa contraditório às vezes, porque é difícil navegar dois mundos e achar congruência em absolutamente tudo o que os dois mundos nos têm a oferecer (o mundo maravilhoso d@s jovens sem filhos, e o mundo maravilhoso d@s jovens com filhos). Não há perfeição em ser humano. Tampouco há perfeição em criar filhos. Existe apenas o "bom o bastante".
Só que uma coisa eu e a Ane temos que é pura desvantagem em relação a outros blogs aparentemente sem dilemas internos: nossos dilemas são aparentes porque escrevemos sobre eles. Então se você, anônimo, adora visitar o blog de mãe que fala só de cupcakes, que fique bem claro: a mãe que faz cupcakes também sofre de dilemas internos.
E se você também adora visitar o blog da mãe que adora postar os comentários engraçados da filha de três anos, que fique bem claro: esta mãe SOFRE de dilemas internos.
E quer saber? Mesmo que os nossos dilemas internos nos façam parecer contraditórias e confusas às vezes (justinho como tornar-se de mulher para mulher mãe já o é), nós não temos vergonha de dizer que somos contraditórias e confusas. Porque, se vida de mãe não te confunde às vezes, parabéns: Você não é como nós.

Arte também é dilema interno. Por isso nos carrega para o sublime.
(Artista: Cindy Sherman)
Quando a gente tem filho, nossa identidade muda. Fica muito mais complexa, porque além de sermos tudo aquilo que éramos antes, agora somos também isso daqui: mães, pais. E esse novo "ítem" no cardápio afeta tudo aquilo que éramos antes; dá uma cara "nova" às coisas que a gente sentia por certas pessoas especiais, certos lugares, certos eventos nas nossas vidas; tudo agora opera "em relação à" nossa maternidade. Seria ridículo pensar que essa nova identidade tão mais complexa não produziria dilemas internos homéricos. Principalmente se você tem filhos ainda nos vinte e poucos anos, quando mal formou sua identidade como mulher, sua identidade sexual, sua identidade como trabalhadora, estudante universitária, o que for.
E eis que um confronto passivo-agressivo (é claro) fez-se num comentário anônimo (é claro) de que o Manhê "sofre de vários dilemas internos".
Santa redundância, Batman.
É CLARO QUE SOFRE. É claro que sofre. Ser mãe é sofrer de dilemas internos e ponto. Eu sofro de dilemas internos o tempo todo, a Anelise sofre de dilemas internos o tempo todo - que mãe não sofre? E o blog, como produto da nossa maternidade, sofre de dilemas internos sim. Muita coisa que a gente escreve sôa contraditório às vezes, porque é difícil navegar dois mundos e achar congruência em absolutamente tudo o que os dois mundos nos têm a oferecer (o mundo maravilhoso d@s jovens sem filhos, e o mundo maravilhoso d@s jovens com filhos). Não há perfeição em ser humano. Tampouco há perfeição em criar filhos. Existe apenas o "bom o bastante".
Só que uma coisa eu e a Ane temos que é pura desvantagem em relação a outros blogs aparentemente sem dilemas internos: nossos dilemas são aparentes porque escrevemos sobre eles. Então se você, anônimo, adora visitar o blog de mãe que fala só de cupcakes, que fique bem claro: a mãe que faz cupcakes também sofre de dilemas internos.
E se você também adora visitar o blog da mãe que adora postar os comentários engraçados da filha de três anos, que fique bem claro: esta mãe SOFRE de dilemas internos.
E quer saber? Mesmo que os nossos dilemas internos nos façam parecer contraditórias e confusas às vezes (justinho como tornar-se de mulher para mulher mãe já o é), nós não temos vergonha de dizer que somos contraditórias e confusas. Porque, se vida de mãe não te confunde às vezes, parabéns: Você não é como nós.

Arte também é dilema interno. Por isso nos carrega para o sublime.
(Artista: Cindy Sherman)
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Se joga!
“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!"
José Saramago
E foi com esse trecho enviado à mim pelo meu namorado que martelei prá escrever algo sobre o que me incomoda como essa bobagem da incerteza de estar sempre agindo corretamente.
As expectativas absurdas que criamos com a maternidade não cabem no porta-malas de uma vida minimamente decente de mãe.
Como ser uma mulher com desejos sexuais intensos e tantas outras vontades controvérsias se a idéia da santa imaculada virgem maria super mãe é a que impera?
E quando dá vontade que tudo desapareça da sua frente e que num passe de mágica, ao abrir os olhos, se depare com uma praia linda, de mar bem azul e areia fofa e, principalmente, sem mais ninguém por perto?
Aí vem a culpa!
"Mãe não pode querer mais nada, tem que se realizar com a maternidade (e ponto)." Esse é o pensamento absurdo que paira no ar, num limbo das conversas de consultório, porta da escola e entre uma folheada e outra dessas revistas sobre maternidade.
Cansa!
Você só precisa ser você mesma! E isso se faz de maneira simples mesmo com todos os sentimentos contraditórios consequentes e necessariamente interdependentes do pensamento externo - aquele que fica te julgando e apontando o dedo na sua cara toda vez que queremos viver com mais intensidade e emoção!
Agora chega de ler blog de mãe, se joga na vida!
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!"
José Saramago
E foi com esse trecho enviado à mim pelo meu namorado que martelei prá escrever algo sobre o que me incomoda como essa bobagem da incerteza de estar sempre agindo corretamente.
As expectativas absurdas que criamos com a maternidade não cabem no porta-malas de uma vida minimamente decente de mãe.
Como ser uma mulher com desejos sexuais intensos e tantas outras vontades controvérsias se a idéia da santa imaculada virgem maria super mãe é a que impera?
E quando dá vontade que tudo desapareça da sua frente e que num passe de mágica, ao abrir os olhos, se depare com uma praia linda, de mar bem azul e areia fofa e, principalmente, sem mais ninguém por perto?
Aí vem a culpa!
"Mãe não pode querer mais nada, tem que se realizar com a maternidade (e ponto)." Esse é o pensamento absurdo que paira no ar, num limbo das conversas de consultório, porta da escola e entre uma folheada e outra dessas revistas sobre maternidade.
Cansa!
Você só precisa ser você mesma! E isso se faz de maneira simples mesmo com todos os sentimentos contraditórios consequentes e necessariamente interdependentes do pensamento externo - aquele que fica te julgando e apontando o dedo na sua cara toda vez que queremos viver com mais intensidade e emoção!
Agora chega de ler blog de mãe, se joga na vida!
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